Dez anos depois, coração de policial morto em acidente continua dando segunda chance de vida a transplantada

Após 10 anos, coração de PM morto em acidente segue dando segunda chance à transplantada Dez anos após a morte do policial militar Rafael Sobral Barros, um...

Dez anos depois, coração de policial morto em acidente continua dando segunda chance de vida a transplantada
Dez anos depois, coração de policial morto em acidente continua dando segunda chance de vida a transplantada (Foto: Reprodução)

Após 10 anos, coração de PM morto em acidente segue dando segunda chance à transplantada Dez anos após a morte do policial militar Rafael Sobral Barros, um gesto de solidariedade segue mudando vidas. Vítima de um acidente de trânsito aos 33 anos, em Presidente Prudente (SP), ele teve os órgãos doados após a família decidir cumprir um desejo manifestado ainda em vida, permitindo que pacientes em espera recebessem uma nova chance de viver. A decisão possibilitou a captação de córneas, rins, fígado e coração. Familiares contam que Rafael costumava falar sobre a importância desse gesto e que a vontade de ser doador era conhecida por todos que conviviam com ele. 📲 Participe do canal do g1 Presidente Prudente e Região no WhatsApp Nesta sexta-feira (19), quando se completam dez anos da captação realizada no Hospital Regional de Presidente Prudente, a história de Rafael continua sendo escrita por outras pessoas. Uma delas é a mulher que recebeu seu coração: Nárriman Souza. Ao g1, a transplantada contou como o procedimento transformou sua vida e falou sobre a gratidão que sente pela família que autorizou a doação em um dos momentos mais difíceis. Doação de órgãos após acidente com PM Rafael Barros (à esquerda) possibilitou uma segunda chance à Nárriman Souza (à direita), que passou por transplante de coração Arquivo pessoal ‘De bem com a vida’ Nascido em Vera Cruz (SP), em 10 de agosto de 1983, Rafael é lembrado pela família como uma pessoa espiritualizada, extrovertida e sempre disposta a ajudar o próximo. Apaixonado por esportes, animais e churrasco, cultivava amizades por onde passava e era conhecido pelo jeito brincalhão. “Ele era uma pessoa extrovertida, brincalhona, de bem com a vida e estava sempre rindo. Com seu jeito engraçado, fazia as pessoas rirem por onde passava. Era estudioso, respeitoso com a família e com a comunidade. Não fazia distinção entre pessoas, tratava a todos com o mesmo respeito”, lembram familiares. Rafael Barros é descrito como uma pessoa extrovertida, 'de bem com a vida' e que sempre estava sorrindo Arquivo pessoal Seguir a carreira militar foi quase natural, diz a irmã Cláudia Cecília Barros. Vindo de uma família com tradição na área da segurança pública e do Direito, Rafael iniciou a formação em Marília e passou a atuar na Polícia Militar Rodoviária em cidades do Oeste Paulista, como Rosana, Presidente Venceslau e Presidente Prudente. Paralelamente, também realizou outro sonho: formou-se em Direito pela Unoeste, em 2010. Segundo familiares, a relação dele com colegas e com a comunidade sempre foi marcada pela disposição em ajudar. LEIA TAMBÉM Procedimento que ajuda a ‘limpar’ artérias do coração é feito pela primeira vez no interior de SP Mães denunciam violência obstétrica e desrespeito ao direito de escolha do parto em maternidade de Bauru Menina de 8 anos com problemas cardíacos morre em UPH de Sorocaba à espera de vaga de UTI O acidente e a despedida Rafael sofreu um acidente em 12 de junho de 2016, após o carro em que estava bater na traseira de outro veículo na Rodovia Assis Chateaubriand (SP-425), em Presidente Prudente. Socorrido ao Hospital Regional, permaneceu internado por quase uma semana na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), enquanto familiares, amigos e colegas acompanhavam a evolução do quadro em uma corrente de apoio e oração. Acidente foi na Rodovia Assis Chateaubriand (SP-425), em Presidente Prudente, em 12 de junho de 2016 Arquivo/Stephanie Fonseca/g1 Ele não resistiu e morreu na tarde de 18 de junho. A notícia mobilizou familiares em Vera Cruz e em Presidente Prudente. Enquanto uma parte permanecia reunida em oração, outra lidava com viagens e procedimentos burocráticos. “Todos acompanhavam esperançosos e preocupados. Vale ressaltar a corrente de apoio dos muitos amigos que ele tinha em Presidente Prudente, Vera Cruz e em outros lugares, além dos colegas de trabalho”, recorda a família. A decisão que mudou outras vidas Ao receber a notícia da morte, a irmã Cláudia Cecília Barros tomou a iniciativa de cumprir um desejo que Rafael já havia manifestado diversas vezes em vida. “Era da vontade do Rafael ser doador de órgãos. Ele mesmo já havia comentado várias vezes sobre o assunto”, contou a família. Embora parte dos familiares tenha hesitado diante da decisão, prevaleceu a vontade de Rafael e a consciência de que aquele gesto poderia transformar outras vidas. “Existem muitas pessoas que passam por problemas gravíssimos de saúde com o sonho da possibilidade de receber um órgão. O que para nossos falecidos não será mais útil, para outras pessoas é um milagre que chega em suas vidas”, afirmaram. Hoje, a família diz sentir conforto ao saber que parte dele continua ajudando outras pessoas. “A sensação é de que Rafael continua vivo, dentro de cada pessoa que recebeu seus órgãos.” Captação dos órgãos foi realizada em 19 de junho de 2016, no HR de Presidente Prudente HR/Divulgação Coração precioso Em Itapecerica da Serra (SP), Nárriman Souza recebeu o coração de Rafael e ganhou uma segunda chance de viver. Ela enfrentava desde 2006 um quadro de cardiomiopatia periparto, doença que compromete o funcionamento do coração e pode surgir no final da gravidez ou nos meses após o parto. Durante anos, tentou controlar a doença com acompanhamento médico, mas o quadro se agravou. Nárriman Souza recebeu o coração de Rafael Barros Arquivo pessoal/Nárriman Souza Em 2016, após uma longa internação e sem perspectivas de recuperação, veio a notícia que mudaria tudo; seria necessário um transplante cardíaco. Menos de 30 dias depois, três dias após deixar a UTI, recebeu outra informação: Havia um coração compatível. “Eu quase tive um treco. Eu não sabia mais o que sentia; era medo, emoção, era tudo junto. E foi assim que surgiu esse coração precioso”, lembrou. No dia 19 de junho de 2016, Nárriman passou pela cirurgia. A recuperação foi considerada um sucesso pelos médicos, embora os cuidados continuem até hoje. Além dos medicamentos imunossupressores, ela faz acompanhamento frequente e mantém uma rotina rigorosa de exames. Segunda chance Dez anos depois, Nárriman ainda se emociona ao lembrar do ocorrido. “Se não fosse essa pessoa, eu não estava mais aqui. Eu sou eternamente grata. Agradeço muito à família do Rafael.” A experiência mudou completamente sua relação com a vida. Hoje, ela incentiva outras pessoas a conversarem com seus familiares sobre a possibilidade da doação de órgãos. Também retomou a rotina profissional. No ano passado, começou a trabalhar em uma churrascaria, algo que antes considerava impossível devido à frequência das consultas médicas. Em 2017, cerca de um ano após o transplante, também realizou outro sonho: se casou com o companheiro de anos. Capitão Daniel Martins (à esquerda) e cabo Fábio Dias (à direita) falam sobre Rafael no ambiente profissional Stephanie Fonseca/g1 O legado entre amigos Descrito por amigos e superiores como alguém “muito querido” e dono de um círculo de amizades que parecia não ter limites, Rafael Sobral Barros deixou uma marca profunda entre aqueles que conviveram com ele. Dez anos depois da morte, as lembranças seguem vivas entre colegas da Polícia Militar Rodoviária, que ainda falam sobre a personalidade cativante do policial. O cabo Fábio Soares Dias, que trabalhou com ele durante anos, diz que o policial mantinha o bom humor em qualquer situação e era reconhecido pelo cuidado com as pessoas próximas. “Você nunca via ele triste, ele sempre estava dando risada. Ele falava: ‘Tem que dar risada. A vida é alegre, a vida é assim, tem que ser feliz’”. O então comandante, capitão Daniel Martins, relembra que a confiança depositada em Barros vinha da postura profissional exemplar. “O Barros sempre foi uma pessoa de confiança para nós, exercia muito bem as atividades de policiamento e de assessoramento aos comandantes”. Tanto que, em 2015, ele foi escolhido para atuar diretamente ao lado do oficial durante as rondas. Initial plugin text Entre os relatos que mais emocionam os colegas está a relação de Barros com o cachorro Mancha, frequentemente citado nas conversas sobre ele. Dias lembra que o animal e o policial eram praticamente inseparáveis. Após a morte do tutor, o animal também não resistiu. “Ele faleceu. Passou um tempo, o cachorro parou de comer e morreu”, lembrou emocionado. Barros e o cachorro Mancha eram inseparáveis, conforme relatos de amigos; cão faleceu após a partida do tutor Arquivo pessoal Gratidão que atravessou a distância A vontade de agradecer levou Nárriman e familiares a tentarem descobrir quem havia sido o doador. O hospital não podia fornecer informações detalhadas, apenas que se tratava de um homem de 33 anos, morador de Presidente Prudente, morto em um acidente de trânsito. Com base nisso, familiares, em especial a sobrinha Aline, iniciaram pesquisas até descobrirem que o coração havia pertencido a Rafael. Nárriman ao lado da sobrinha Aline, que ajudou a encontrar a família do doador Arquivo pessoal/Nárriman Souza Assim, foi feito contato com a família. “Foi muito bom porque eu pude agradecer”, contou Nárriman. A família diz que acompanhou a recuperação dela durante os primeiros anos, sempre com carinho e orações. Também reforça a vontade de conhecer a transplantada pessoalmente. Hoje, Nárriman reforça a importância de conversar sobre o tema e deixar a vontade expressa em vida. “É a esperança para quem está aguardando por um coração, pâncreas, enfim, todos os órgãos que podem ser doados.” “Doe. Doe órgãos, doe coração, doe rins; doe alegria, doe sorriso, doe amor. Doação de órgão é doação de amor.” Veja mais notícias em g1 Presidente Prudente e Região VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM

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